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Excelentíssimos presentes, Excelentíssimo Professor Formosinho. É um grande prazer e honra ser convidado para contribuir com alguns aspectos pessoais relacionados com a obra Uma intuição por Portugal, escrita pelo Excelentíssimo Professor Formosinho, no contexto do lançamento deste livro. Infelizmente, é mais provável que eu nunca venha a compreender todas as particularidades de muitas facetas que o autor descreve neste único e admirável documento. Há duas razões para este facto; por um lado, o meu conhecimento da língua portuguesa é limitado. Por outro lado, não vivi muito tempo em Portugal para poder adquirir o conhecimento tácito necessário de modo a compreender o conteúdo do livro, o conhecimento tácito que o autor designa por «o nosso modo de vida». O conhecimento do meu modo de vida é uma mistura de, em primeiro lugar, 23 anos na Suíça e, em segundo lugar, um pouco mais de 40 anos na Suécia, e desde 2000, que vivo em Portugal durante apenas 5 meses por ano. Penso que há diferenças muito significativas nestes modos de vida. Apesar da minha experiência bastante limitada do modo de vida português, verifico cada vez mais uma diferença fundamental entre os modos de vida de Portugal e da Suécia. O modo de vida sueco caracteriza-se por uma transparência enquanto o modo de vida português distingue-se por uma clandestinidade. Para mim, este contexto de clandestinidade presente em muitas facetas em Portugal é o local de desenvolvimento e de crescimento que o filósofo José Gil, citado pelo autor na introdução do livro, designa por “inveja, fuga ao risco, não inscrição, instabilidade de estratégias políticas, institucionais, administrativas e outras”. Durante os sete anos que trabalhei em Portugal e principalmente em Viseu, tive de aprender e suportar as multiplicidades de poderes e de grupos clandestinos e a interacção destes numa situação de desconfiança. Em primeiro lugar, desde o fim de 2000 até meados de 2003, trabalhei na Escola Dentária da Universidade Católica sob a liderança do reitor do Campo Beiras, o professor Dr. Formosinho e o seu director administrativo, o Dr. Paraíso. Depois participei no projecto “Viseu Região Digital” sob a liderança de Marina Leitão e do Dr. Paraíso. Na Católica em Viseu, participei na implementação da “Universidade do Futuro”, uma inovação num contexto mundial relacionada com a metodologia e ferramentas de ensino na Medicina Dentária, uma área que abrange significativamente os conhecimentos tácitos, que “carecem de ser ensinados e aperfeiçoados através da acção numa relação de mestre e aprendiz”. A inovação mais importante em relação à metodologia prende-se com o facto de todo o ensino estar incorporado num contexto de visão holística com o paciente no centro. A inovação mais importante relacionada com as ferramentas foi a aplicação da ferramenta HEINET, uma invenção de um grupo de investigadores na Católica em Viseu, que também tinha a patente desta ferramenta. A HEINET, uma infra-estrutura de rede de câmaras e monitores, permite ensinar numa verdadeira relação entre mestre e aprendiz. Devido à falta de tempo, deixo ao professor Formosinho a tarefa de explicar mais detalhadamente a HEINET. A “Universidade do Futuro” foi inaugurada a 27 e 28 de Setembro de 2001 numa cerimónia oficial solene de inauguração da Escola de Medicina Dentária com a participação quer de figuras de grande importância a nível político, do estado português e da Igreja Católica de Portugal como representantes da Comissão Europeia em Bruxelas e celebridades académicas internacionais na área da Medicina Dentária.
A formação liderada pela professora Ina-Veronika Wagner, uma pioneira a nível internacional na área de formação de Medicina Dentária, foi muito bem-sucedida. Os estudantes estavam muito entusiásticos e rapidamente o milagre de Viseu foi registado no mundo da Medicina Dentária internacional. Muitos profissionais dos Estados Unidos da América, Canadá, Inglaterra, Alemanha, Espanha, Suíça, Suécia, etc., deslocaram-se a Viseu. O sucesso de Viseu originou um desagrado e uma inveja crescente não apenas nas faculdades de Medicina e de Medicina Dentária das universidades de Lisboa, Coimbra e Porto mas também, desde o início, em outras partes da Universidade Católica Portuguesa, UCP, como por exemplo, na reitoria central em Lisboa. Surgiram diversos grupos clandestinos cujo objectivo era abafar a inovação em Viseu. Infelizmente, foram bem-sucedidos! Apenas algumas semanas após a excelente avaliação da Medicina Dentária realizada no fim de Maio de 2003, o presidente do Centro Regional e o director de Administração e Planificação do Centro Regional das Beiras foram despedidos. O reitor da Universidade Católica Portuguesa decidiu abortar todos os processos de inovação nascidos em Viseu e retomar a uma Medicina Dentária tradicional. Os estudantes e a maioria dos professores lutaram contra esta decisão. Os protestos fizeram com que o governo português decidisse nomear o mesmo grupo de peritos internacionais, que em 2003 tinha avaliado a escola, para realizar uma nova avaliação no Verão de 2004. O resultado foi a recomendação para que parasse imediatamente o aborto, ou caso contrário, fecharia a escola e distribuía os estudantes pelas outras faculdades de Medicina Dentária em Portugal. Claramente, o presidente do Conselho Superior, o cardeal de Portugal e o reitor da Universidade Católica Portuguesa, não aceitaram este veredicto, e o aborto de todos os processos de inovação nascidos em Viseu tornou-se uma realidade! Um grande choque para a comunidade dentária internacional! Isto exemplifica perfeitamente a inevitável auto-destruição de quase todos os processos inovadores, que é típica do modo de vida português. No meu trabalho no âmbito do projecto “Viseu Região Digital” constatei mais exemplos de multiplicidades de poderes e de grupos clandestinos e da interacção destas multiplicidades. Felizmente, estes exemplos não tiveram a mesma consequência trágica como na UCP e não originaram um efeito negativo persistente durante um período imprevisto. Alguns projectos no âmbito do projecto “Viseu Região Digital” sofreram o mesmo destino; foram afastados por uma multiplicidade de poderes e de grupos clandestinos e pela interacção das mesmas. Estes são apenas três exemplos de projectos-piloto que deveriam ser implementados em todo o país:
- Dão Digital, um projecto baseado na internet, com o objectivo de divulgar informações sobre os vinhos da região do Dão e produtores de vinho na região e possibilitar a venda e o fornecimento do vinho Dão na Europa e finalmente, estabelecer um ensino interactivo elementar e avançado. Felizmente, o resto do projecto “Viseu Região Digital” foi um sucesso, especialmente o projecto-piloto de desenvolvimento e implementação do sistema de apoio para a detecção e combate aos incêndios florestais, que é utilizado desde 2007 em todo o país. Naturalmente, foi um nascimento tenaz muito complicado no âmbito dos poderes e grupos clandestinos e da interacção dos mesmos. Isto demonstra que ainda há esperança…
Eu estou convencido de que a única forma que existe para se sair da miséria do modo de vida português é eliminar a clandestinidade e criar uma transparência total em todas as áreas de actividade humana. Por que é que ninguém discute publicamente o problema do carácter multi-clandestino do modo de vida português? O lema para o futuro deste país deve ser: Transparência! Isto implica claramente a necessidade de um esclarecimento muito eficaz dos vários tipos de conhecimento tácito, especialmente do “modo de vida português”. Muito obrigada pela atenção dispensada. |

