O filósofo José Gil prescreve um modo de combater a inveja: «A única maneira de combater a inveja é afirmar-se a si próprio na sua máxima singularidade»[i]. Claro que tal é difícil, devido a mecanismos de inteligência social. Os neurónios-espelho do cérebro humano reflectem no indivíduo «uma acção que observamos em terceiros, fazendo-nos imitar esta acção ou sentir o impulso a imitá-la». São neurónios de “faz-o-que-ele faz”, como enfatiza Daniel Coleman[ii]. Graças aos estudos de Daniel Stern, Coleman afirma que o sistema nervoso humano «está construído de modo a captar os sistemas nervosos de outras pessoas para que possamos experimentar os outros como se estivéssemos na pele deles. Nesses momentos, ressoamos como as experiências deles, e eles com as nossas. Deixamos de poder […] ver as nossas mentes como tão independentes, separadas e isoladas. Devemos, em vez disso, vê-las como ‘permeáveis’, interagindo continuamente como que unidas por um elo invisível. Ao nível do inconsciente, estamos em constante diálogo com quem quer que interagimos, todos os nossos sentimentos e maneira de nos movermos sintonizados com os da pessoa. Pelo menos enquanto dura a interacção, a nossa vida mental é co-criada, num[a] matriz bipessoal interligada»[iii].
A palavra alemã Einfühlung, que significa literalmente “sentir dentro de”, sugere uma imitação interior do sentimento de outras pessoas. É traduzida correntemente por empatia, com três sentidos distintos: «conhecer os sentimentos de outras pessoas; sentir o que a outra pessoa sente; e responder compassivamente à aflição alheia. Estas três variedades de empatia parecem descrever a sequência 1-2-3: reparo em ti, sinto o que tu sentes e por isso actuo para te ajudar»[iv].
Os neurónios-espelho são úteis no que diz respeito ao exercício da compaixão, mas dificultam o nosso combate à inveja. Neste sentido, o normativo de se «afirmar a si próprio na sua máxima singularidade» é de enorme acuidade no seio da sociedade portuguesa.
Perante estes mecanismos da inteligência social, compreendemos que as forças que se desenvolvem no interior da sociedade nacional dependam da concentração social de certos actores. E esta concentração quando demasiado elevada pode provocar “separações de fase”, como quando a água líquida gela rapidamente abaixo de 0 °C e, de um modo muito mais rico, se pode observar em cristais líquidos, como os dos ecrãs dos nossos telemóveis. Em termos sociais, digamos que se está perante um certo tipo de apartheid. Igualmente podemos reconhecer que o enfraquecimento sofrido ao longo da história, devido às navegações marítimas e à emigração, tenha acentuado socialmente as debilidades e defeitos da sociedade portuguesa.
Baseado no conceito de «entropia de mistura», Carvalho Rodrigues[v] define uma função de coesão de estruturas, tais como em exércitos, agregados urbanos, populações sujeitas a epidemias, etc.. No caso de tais estruturas dependerem somente de duas variáveis, uma das quais é destruidora do sistema, verifica-se que a coesão é perdida quando a variável de destruição é superior a 1/e=37%. Por exemplo, a coesão de um exército perde-se quando o número de baixas ultrapassa os 37%. Se a sociedade portuguesa é com certeza mais complexa que uma estrutura militar como um exército, não é imune a tais efeitos de coesão e ruptura. Particularmente quando tais efeitos são muito intensos e sujeitos a algum modo de auto-catálise como o que vamos descrever seguidamente.
Daniel Coleman conta a seguinte história que descreve bem um caso extremo de inveja: «Conheci em tempos um homem que tinha sido convidado para fazer um cruzeiro pelas ilhas gregas a bordo de um iate particular. Não era um iate qualquer, mas um superiate, um minitransatlântico tão grande que estava mencionado num registo especial dos maiores barcos de recreio do mundo. Em cima da mesa da sala de estar do iate havia um exemplar de um livro, um grosso e ricamente ilustrado volume que dedicava duas páginas desdobráveis aos luxuosos pormenores de cada iate.
Os cerca de doze convidados a bordo estavam encantados com os confortos e o tamanho da esbelta embarcação … até ao dia em que um iate ainda maior ancorou nas proximidades. Consultando o registo, descobriram que o seu vizinho náutico se contava entre os cinco maiores iates do mundo e pertencia a um príncipe saudita. Ainda por cima, tinha um companheiro, uma outra embarcação que carregava os abastecimentos, com um enorme trampolim aquático suspenso da proa. E o ‘barco de serviço’ era aproximadamente do tamanho do iate em que eles viajavam»[vi].
E Coleman prossegue: «Será possível que exista uma coisa chamada inveja de iate? Certamente, segundo Daniel Kahneman, um psicólogo da Princeton University. Estas invejas de alto coturno resultam daquilo a que se chama ‘a passadeira rolante hedonista’. Kahneman, galardoado com o Prémio Nobel da Economia de 2002, usa a imagem da passadeira rolante para explicar por que motivo as circunstâncias mais vantajosas, como uma grande riqueza, têm escassa relação com a satisfação que cada um tira da vida.
[i] Em http://www.citador.pt/cact.php?op=8&theme=126&firstrec=0; acesso em 1 de Abril de 2008.
[ii] Daniel Coleman, “Inteligência Social. A Nova Ciência das Relações Humanas”, Círculo de Leitores, Lisboa, Barcelos, 2006, p. 67.
[iii] Id., pp. 70-71.
[iv] Id., p. 93.
[v] F. Carvalho Rodrigues, “As Novas Tecnologias, o Futuro dos Impérios e os Quatro Cavaleiros do Apocalipse”, Discórdia, Lisboa, 1991.
[vi] Coleman, ob. cit., p. 451.

