Não fomentamos suficientemente a criatividade e a inovação, fugimos ao risco e hoje vivemos em “sociedades de risco”, o peso da rotina atrofia-nos, sente-se um apreciável imobilismo social, grassa entre nós uma gritante mediocridade. Ao longo dos anos temos vindo a abandonar o Interior de Portugal, hesitamos permanentemente à procura da “última moda”, mantemos um centralismo exagerado à volta da capital que não deixa emergir o princípio da subsidiariedade. Ao ponto de se colocar a questão: Lisboa motor ou travão para o desenvolvimento do país? Em suma, recusamos viver no mundo onde estamos inseridos por passividade e inércia, e ainda por não assumirmos alguma quota individual, por pequena que seja, de melhorar a nossa comunidade.
Permanecem invariantes na sociedade portuguesa - «as debilidades e os vícios da portugalidade» apontadas por Fuschini -, que parecem manobrar os portugueses como simples marionetas, que com boa fé ou sem fé os arrastam como nadadores perdidos em mar alteroso. As pessoas parecem ser irrelevantes e somente sobressaem mentalidades e os contextos sociais.
Outros sinais, todavia, parecem apontar em sentido oposto. Magalhães Godinho mostrou que a emigração constituiu uma «constante estrutural» da história portuguesa[i]. Mas surpreendentemente, entre 1975 e 1985, o rectângulo nacional integrou cerca de 6% a 7% da sua população ─ “os retornados” ─, num «processo que demonstrou bem a plasticidade da sociedade tradicional portuguesa»[ii]. Teremos de atentar, todavia, em que os integrados, eram emigrantes portugueses e, como tal são parte da elite de que fomos sangrados ao longo da nossa história; elites de fazer, elites de ideias.
Como eu mesmo referi: «Presentemente a dimensão da ‘Diáspora Portuguesa’ é enorme: cerca de 4,6 milhões de cidadãos de origem portuguesa nos cinco continentes[iii], isto é, 45% da população metropolitana. Valor tão alto que retirou uma fracção excessivamente elevada das nossas elites sociais. Uma verdadeira sangria de ‘elites’! Porque as elites são as pessoas que fazem circular os valores, as atitudes, os comportamentos, o bom senso, as ideias, a inovação, os projectos, e contribuem para alargar os nossos horizontes, porque algumas conseguem ver mais longe que o comum dos cidadãos. Os nossos emigrantes, com educação formal ou sem ela, fazem, de um certo modo, parte das nossas ‘elites’, claramente das nossas ‘elites intermédias’. Os emigrantes são a parcela da sociedade portuguesa geralmente mais inconformada e com o espírito mais empreendedor, os que aceitam o risco em detrimento da segurança e buscam a mudança»[iv].
Quem exprime toda esta realidade de um modo muito mais poético é Afonso Lopes Vieira na Dedicatória da “Demanda do Graal”: «Aos Portugueses que não saibam ler e sejam a última gente primitiva e cristã da nossa terra, e ao escol de espíritos dos que leram tudo e sintam o exílio na amada Pátria, ofereço, dedico e consagro estas páginas que exaltam o nosso lirismo, e onde o mais humilde dos poetas buscou contribuir para reaporteguesar Portugal tornando-o Europeu, procurando, através da selva escura, salvar também a sua alma»[v]. Para no corpo da obra ainda escrever: «Nós emigramos na própria terra; e os que para longe dela abalam não serão os que melhor porção da pátria entesouram na alma?»[vi].
[i] Vitorino Magalhães Godinho, “L’emigration portuguaise (XV-XX siècles): une constante structurale et les responses aux changement du monde”, Revista de História Económica e Social, 1, 5-32 (1978).
[ii] Augusto Santos Silva, Joaquim Azevedo e António Manuel Fonseca, “Valores e Cidadania: a coesão social, a construção identitária e o diálogo intercultural”; http://www.giase.min-edu.pt/aval_pro/PDF/rcarneiro/TOMO2/tom_2_5.pdf.; acesso 5 de Abril de 2008, p. 170.
[iii] J. Carvalho Arroteia, “Aspectos da Emigração Portuguesa”, Scripta Nova, nº 94, 1 de Agosto 2001;
http://www.ub.es/geocrit/sn-94-30.htm; acesso em 17 de Setembro de 2004.
[iv] Sebastião Formosinho, “Nos Bastidores da Ciência. 20 Anos Depois”, Imprensa da Universidade de Coimbra, Coimbra, 2007, p. 239.
[v] Afonso Lopes Vieira, “Demanda do Graal”, Portugal Brasil Ldª. Sociedade Editora de Lisboa, 1922.
[vi] Id, p. 300.

