InícioUma Intuição...ExcertosA «jangada» da ciência portuguesa e o Leste Europeu

A «jangada» da ciência portuguesa e o Leste Europeu

Após uma longa digressão de dez Capítulos, vamos regressar ao nosso país, e a «Portugal como Problema». Inicialmente centrados sobre a coesão social entre o país e a sua capital, cujo crescimento demográfico está a ser desmesurado e fomentador de desagregações sociais. Tal contraria os presentes objectivos da União Europeia a que pertencemos: «tornar a Europa o espaço económico mais dinâmico e competitivo do Mundo, baseado no conhecimento e capaz de garantir um crescimento económico sustentável, com mais e melhores empregos e com maior coesão social».

O crescimento demográfico na Grande Lisboa, cujas previsões apontam vir a ser, em curto prazo, bem superior a 37% da população nacional ultrapassando um limite de coesão social, fomenta o «medo de existir» e faz doente o habitante de Lisboa. A leveza com que surgiu o «caso da inovação fracassada da UCP em Viseu» é apenas o sinal visível de uma tal doença que adormece a razão ─ «o sono da razão» ─ e dá alguma consistência ao número de Carvalho-Rodrigues. Este «sono da razão» alastra desde há muito em Portugal, tornando-se letal para qualquer português quando ultrapassa os limites de contágio ─ «a inveja de iate»: o querer a demografia, o prestígio e o poder! Como escreveu Michael Polanyi: «the medical practicioner does not diagnose the appearance of a disease, but its presence »[1]. E a doença não é uma leveza fruto de um rompimento com o main-stream social para criar e inovar; bem pelo contrário é prenúncio de destruição.

Como se demonstrou no Capítulo 6, com igual leveza Portugal parece ter voado na Europa da ciência rumo ao Leste, se bem que haja razões culturais que o permitem compreender. Mas agora, a primeira preocupação é que se mantenha como “rectângulo único”, geográfico e social, pois julgo tal ser imprescindível num voo que promete turbulência. O segundo desiderato é que a ciência nacional possa ser remédio capaz para combater a desagregação social, se bem que um medicamento com poderes terapêuticos limitados. E sob esta perspectiva, o papel da Região Centro de Portugal poderá ser estruturante, pois um “modelo bipolar” não desenvolve uma coesão social suficiente para resistir a ambientes de uma maior instabilidade como os que a nação portuguesa actualmente regista no contexto europeu ao fugir da sua geografia. Com a acrescida vantagem de a norte do Tejo ser a região Centro a de menor assimetria entre o Litoral e o Interior.

José Saramago no seu romance a Jangada de Pedra, viu em 1986 a Península Ibérica a soltar-se do continente europeu. Uma ruptura fantástica da península em relação aos Pirinéus, tornando-a numa verdadeira jangada que no oceano Atlântico se revelou como um símbolo. Era uma alusão à unificação da Europa, na qual os Países Ibéricos pareciam postos de lado, «navegando à deriva sem se identificarem cultural, social ou economicamente com o restante do continente». Os dendrogramas apresentados no Capítulo 6 deixam-nos uma imagem diferente em relação aos companheiros castelhanos e andaluzes do romance. Mas o risco da imagem permanecer válida para nós mesmos é enorme. E não é visível o vento que nos empurra.

Às tantas no citado romance, a «Jangada de Pedra» pára. Portugal fica voltado aos Estados Unidos e a Espanha para a Europa. O que nós vemos agora é uma Jangada partida em duas, e com o risco de perder um outro pedaço entre-os-rios Tejo e Trancão, prosseguindo em evolução geológica e social pelas fronteiras da A 8 e da A 21. E a “terra” treme sem nós sentirmos e começa a quebrar-se. O epicentro foi em Lisboa, os estragos em Viseu e na Figueira da Foz. Talvez consigamos evitar que se quebre lá pelo Trancão. E depois?

Em Lisboa a ruptura pelo Tejo não é tão “sobrenatural” ou mítica como isso. Nos inícios da década de oitenta a Universidade Nova de Lisboa (UNL) foi concebida para ser instalada a sul do Tejo. Começou em instalações disponíveis do Seminário dos Olivais na cidade. Foi criando instalações próprias todas na margem norte, isto é, em Lisboa-cidade. Só quando houve consonância de cientistas e engenheiros no Ministério da Educação e da Ciência e na direcção da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UNL foi possível instalar esta faculdade na margem sul, no Monte da Caparica. É difícil fugir ao main-stream, mas se ainda resta alguma capacidade para tal no meio universitário parece ser no campo das ciências da natureza e das engenharias. Daí o papel que antevejo para a Ciência no fomento da coesão social no interior do país e de Portugal com a Europa.

Uma debilidade social? Uma ciência nacional numa crise de crescimento? Um habitat numa fronteira do caos? No romance de Saramago é Pedro Orce próximo dos sessenta anos, espanhol da região de Orce e farmacêutico no vilarejo de Venta Micena, que sente a terra tremer enquanto que os sismógrafos não conseguem detectar nenhum tremor. A maior parte de nós portugueses, tal como os sismógrafos, não sente ainda nenhum tremor na terra. Atormenta-nos sim a viabilidade do país. A propósito de vários sinais de instabilidade social, levei os meus leitores a percorrer uma jornada que talvez não «desatormente as almas», mas nos torne atentos e escarmentados para os perigos e dificuldades que se insinuam mais nos factos do que nas opiniões. Pois quanto mais forte é a retórica, mais fracos são os argumentos.

  

[1] Michael Polanyi, “Tacit Knowing: Its Bearing on Some Problems of Philosophy”, Reviews of Modern Physics, 34 (4) Oct. 1962, 601-616; p. 603. Disponível em http://www.missouriwestern.edu/orgs/polanyi/.