No ser humano, já o dissemos, para Polanyi a distinção crucial entre conhecimento explícito e conhecimento tácito assenta precisamente na impossibilidade de uma plena articulação verbal. Não conseguimos descrever por palavras como reconhecemos certos odores e sabores, como o cheiro do café, ou descortinamos uma fisionomia conhecida entre algumas centenas de pessoas. Se a linguagem deu uma enorme capacidade ao ser humano, não está isenta de limitações, ambiguidades e imprecisões em relação ao nosso modo de pensar. E de falarmos connosco mesmos.
Tomemos como João Maria André um belo texto de Mia Couto num dos contos de Vozes Anoitecidas, em que começa com estas palavras: «Eu somos tristes. Não me engano, digo bem. Ou talvez: nós sou triste? Porque dentro de mim não sou sozinho. Sou muitos. E esses todos disputam minha única vida. Vamos tendo nossas mortes. Mas parto foi só um»[i]. Neste breve exemplo reconhecemos de imediato limitações nas nossas formas verbais, que Mia Couto muito enfatiza.
Ou ouçamos José Saramago em Intermitências da Morte: «coitados dos dicionários, que têm de governar-se eles e governar-nos a nós com as palavras que existem, quando são tantas as que ainda faltam, por exemplo, essa que iria ser o contrário activo da presunção, porém, em nenhum caso a rebaixada cabeça da humildade, essa palavra que vemos claramente escrita na cara e nas mãos do violoncelista, mas que não é capaz de dizer-nos como se chama»[ii].
Na primeira metade do século XVI, François Rabelais, no seu entusiasmo por questões sociais e morais, produziu uma das mais amplas concepções do mundo da Época Moderna. «Evidentemente, pensava que a exposição das suas ideias num tratado não seria
seguro nem susceptível de atingir um público numeroso. É nas descrições das pessoas entre as peripécias dos contos, cuja acção é lenta, e nos Prólogos cheios de poesia e espírito que Rabelais insinua as suas opiniões radicais. Noutras ocasiões fala de forma directa e, com a mesma frequência, prova o que pretende através do propósito ou resultado das acções e incidentes. Assim, o grande debate entre Panurgo e o inglês Thaumast (= Thomas More) é inteiramente conduzido por sinais e gestos; o que pretende provar é que as palavras não conseguem exprimir tudo o que pode ser pensado e sentido na vida humana»[iii].
Regressemos ao pensamento polanyiano: Em qualquer língua há uma certa pobreza, pois frequentemente recorremos à mesma palavra com diferentes significados. E palavras são “palavras”, só através da sua repetição e consistência de significado em frases escritas ou faladas é que fazemos um uso corrente de uma qualquer linguagem humana[iv]. Se eu acredito que a “neve é branca”, então direi que a frase a neve é branca é verdadeira. Há uma certa diferença entre o apresentar uma proposição e em afirmar que essa mesma proposição é verdadeira. O primeiro entendimento realça o carácter pessoal do nosso conhecimento, o segundo a sua intenção de universalidade[v]. Mas ambos fazem parte do conhecimento pessoal. Chama ainda a atenção para a circularidade presente na manutenção da estabilidade dos nossos sistemas de convicções, à laia de um dicionário, que apresenta o significado de um palavra através de outras palavras, e só ficamos satisfeitos se encontrarmos uma a respeito da qual não tenhamos dúvidas[vi].
Com efeito, as nossas mais profundas convicções são determinadas pelo idioma em que interpretamos as nossas experiências e pelos termos em que conseguimos pôr de pé os sistemas de articulação de ideias e factos. As convicções expressas por palavras e frases que entendemos verdadeiras, são-no porque previamente as aceitámos como logicamente válidas para construirmos a realidade com que nos confrontamos[vii]. Ou como Teixeira de Pascoaes reconhecia: «A língua, não determinando rigidamente a cultura de um povo, traça-lhe não obstante vias de orientação; […] cada língua constitui um modelo do universo, um sistema semiótico de compreensão do mundo, um verdadeiro mundo que o espírito coloca entre si os objectos pelo trabalho interno da sua força»[viii]. Fernando Pessoa ─ inspirado no Padre António Vieira, que Jorge Sampaio apresentou de forma eloquente: «Vieira, esse povo de palavras» ─ vai ainda bem mais longe no Livro de Desassossego quando escreveu: «Minha pátria é a língua portuguesa»[ix].
Araminta Johnston apresenta-nos algo de semelhante numa linguagem wittgensteiniana: «Imaginar uma língua significa imaginar uma forma de vida. Quando os seres humanos dizem isto ou aquilo ser verdadeiro ou falso, têm um acordo implícito na língua empregue. Não se trata de um acordo de opiniões, mas sim numa forma de vida»[x]. É a textura do nosso pensamento a estar em jogo e não conseguimos pensar que esta teia esteja errada.
No “segundo” Wittgenstein encontram-se conceitos similares sobre filosofia da linguagem aos de Polanyi: «É a prática que confere significado às palavras». Aliás, uma filosofia do conhecimento tácito tem vindo a ser desenvolvida recentemente por wittgensteinianos escandinavos que também reconhecem o conhecimento tácito como a base do conhecimento proposicional[xi]. Mas o pensamento inicial de Michael Polanyi a respeito do conhecimento tácito não foi inspirado por Ludwig Wittgenstein, o “primeiro”. Bem pelo contrário, Polanyi foi explícito em contra-argumentar certas ideias do “primeiro” Wittgenstein, nomeadamente na sua famosa frase «sobre aquilo que não se pode falar é melhor calarmo-nos»[xii]. Atente-se no contraste com outra frase igualmente famosa, esta de Polanyi, «sabemos mais do que conseguimos dizer».
[i] João Maria André, “Identidade(s) e Multiculturalismo: Os desafios da mestiçagem à Igreja do presente”, em “Deus no Século XXI e o Futuro do Cristianismo”, Anselmo Borges coord., pp. 151-196; p. 151.
[ii] José Saramago, “Intermitências da Morte”, Círculo de Leitores, Lisboa, 2006, p. 178.
[iii] Barzun, ob. cit., p. 142.
[iv] Polanyi, “Personal Knowledge”, pp. 78, 79.
[v] Id., p. 255.
[vi] Araminta Stone Johnston, “Theory, rationality, and relativism”, Tradition & Discovery, vol. 20, nº 3, 16-28 (1993-1994); p. 22.
[vii] Id., p. 21.
[viii] Teixeira de Pascoaes, em “Portugal como Problema. Século XX, os Dramas de Alternativa”, vol. IV, org. Pedro Calafate, Fundação Luso-Americana/Público, Lisboa, Setembro de 2006, p. 59.
[ix] José Carlos Seabra Pereira, “Servanda Lusitania!”, Revista de História das Ideias, 28, 527-566 (2007); p. 542.
[x] Araminta S. Johnston, ob. cit., p. 22.
[xi] Ver notas 2, 5, 10, 13 e p. 20 entre outras, em Yu Zhenhua. "Tacit Knowledge: A Wittgensteinian approach", Tradition & Discovery, vol. 33, nº 3, 9-25 (2006-07).
[xii]; Polanyi, “Personal Knowledge”, pp. 87, 113-114.

