«A crença que os contemporâneos estão cientes daquilo que a história considera significativo é infundada, razão pela qual a história possui uma visão de conjunto mais equilibrada do passado do que o próprio passado. Em todas as épocas, a quantidade e conhecimento geral sobre qualquer tópico importante, passado ou presente, varia com a moda e diminui ou aumenta de acordo com os caprichos do acaso»[i]. Mas é bastante óbvio que a destruição pelo Estado Novo já fortemente salazarista da Escola Médica de Lisboa, que a tão elevado nível científico se havia alcandorado, haveria de ter consequências na ciência nacional num futuro não muito longínquo. Foi (e é) «o nevoeiro de sempre que nos envolve e não nos deixa distinguir com clareza o real do ‘irreal’ […] . E, mais uma vez, o nevoeiro [foi] é invisível, pois tudo parece nítido, claro, com contornos bem definidos»[ii]. No entanto, com o transcorrer da história, podemos reconhecer que foi a pior altura, num ponto de viragem dos países ocidentais após a 2ª grande Guerra, viragem que o “nevoeiro nacional” não deixou sequer vislumbrar.
«O Iluminismo tinha deixado a convicção que os frutos da investigação científica e da conquista de mais conhecimento haveriam de levar, inexoravelmente, a um maior e contínuo progresso da humanidade. Contudo, o desencadear da I Grande Guerra (1914-1918), uma guerra em que, pela primeira vez, estão envolvidas nações inteiras e não somente alguns dos respectivos exércitos, teve consequências nas mentalidades dos povos que a sofreram. Após a guerra, em 1919 verifica-se a incapacidade de os países voltarem a retomar o padrão monetário do ouro, surgem ideologias totalitárias em regimes democráticos e não-democráticos (nazismo, fascismo e comunismo), e sobrevém a crise económica da Grande Depressão de 1930 e a corrida aos armamentos. Gerou-se mesmo um clima internacional de preparação para novas guerras, ainda mais terríveis que as anteriores. Adiantando um pouco a história, como Michael Polanyi bem enfatizou, as sociedades de regimes totalitários, apoiadas num cepticismo radical e num perfeccionismo moral abstracto, negador da realidade dos valores humanos, não criaram um “super-homem”. Bem pelo contrário, gerou-se uma «volatilidade política» desequilibrada em ordem a uma “ditadura da razão” que desembocou numa inversão moral patológica que matou o próprio homem.
Mas regressemos novamente a 1930 e ao questionamento do papel da ciência na sociedade na época. A ciência já não podia ser um divertimento intelectual de índole individualista, em pessoas abastadas ou mentes engenhosas apoiadas por mecenas, nem podia ser aplicada para inventar novas armas e meios ainda mais destrutivos, como a guerra química da I Grande Guerra, ou ser um mero desperdício das energias do homem. O campo da saúde e do bem-estar tinha sido, em muito, ignorado pela ciência, o que havia levado a um desenvolvimento muito desigual das diferentes ciências, mormente da física e da química, em detrimento das ciências biológicas e das da vida. A ciência não podia ser uma actividade civil descoordenada, mas teria de ser uma actividade com uma coordenação do Estado, e disso se apercebeu o regime soviético antes dos países ocidentais»[iii]. Este tal como o nazismo pautados por uma «inversão moral»; o mundo ocidental democrático, um pouco mais tardiamente, e de uma forma menos dirigista, foi-se encaminhando para focalizar a conhecimento científico também na resolução de problemas no campo da saúde e das ciências da vida.
Após a 2ª Grande Guerra, foram, de facto, os países ocidentais, que começaram a reorientar a investigação dos respectivos países para problemas suscitados pelas ciências biológicas tendo em vista futuras aplicações nas ciências médicas, que começam a emergir em relação às ciências mais tradicionais da física e da química. Daí que nos nossos dias o padrão das ciências dos diferentes países sejam em muito determinado pelas ciência da Física e da Química, mas também pela Medicina Clínica e, em menor grau mas ainda com expressão, as áreas de “Bioquímica & Biologia”, “Biologia Molecular & Genética” e “Neurociências e Comportamento”. Tal vem a reflectir-se no surto de investigações médicas e clínicas, no desenvolvimento de novos meios de diagnóstico não-invasivos de base física, em novos meios terapêuticos de base biológica, química e física, e numa actividade clínica baseada na observação médica com significado estatístico.
Esta focalização na Medicina Clínica, na Física e na Química e no conjunto das três áreas científicas dos sistemas biológicos dos seres vivos, é um modo simplificado, mas muito compreensível de ver as coisas, porque a visão global proporcionada pelos dendrogramas do Capítulo 6 tem em conta 22 especialidades.
Prosseguindo, em Junho de 2007, segundo dados do ESI, a Espanha possuía 67 instituições no ranking de Medicina Clínica, dos quais 25 são universidades e 42 hospitais. Portugal tem 7 instituições nesse ranking: 4 universidades e 3 hospitais. A diferença mais acentuada é a nível hospitalar, cerca de 14 vezes superior em Espanha, bem mais elevado que a relação de cerca de 4 vezes nas populações.
Há uns trinta anos atrás o panorama académico de Espanha e de Portugal não diferia apreciavelmente. Uma Espanha, ainda empobrecida, mostrava sequelas de uma dolorosa e devastadora guerra civil. Hoje a diferença entre os dois países ibéricos é muito acentuada, e um sector onde a diferença é mais notória é precisamente em Medicina Clínica. Entre nós, tempos recentes moldados muito por uma política científica ao modo do “Inst Super Tecn”, em que problemas do foro do ensino médico se não colocam, não têm contrariado uma tal tendência. E, no entanto, quer nas universidades, quer nas Escolas de Enfermagem e de Saúde, quer nos hospitais há uma actividade continuada de ensino médico, paramédico e de enfermagem a nível do conhecimento explícito e do tácito. Em Portugal requerem-se equipas de investigação mais diversificadas para lidar eficazmente com a investigação nas áreas da medicina clínica.
[i] Jacques Barzun, “Da Alvorada à Decadência. De 1500 à actualidade”, Gradiva, Lisboa, 2003, p. 184.
[ii] J. Gil, “Portugal, Hoje. O Medo de Existir”, Relógio D’Água, Lisboa, 6ª reimpressão, Março 2005, p. 11.
[iii] Formosinho, “Nos Bastidores da Ciência. 20 Anos Depois”, Imprensa da Universidade de Coimbra, Coimbra, 2007, pp. 59, 60.

