Em 1893 o pintor norueguês Edward Munch pinta a sua obra mais famosa, O Grito. Tendo com pano de fundo a doca de Oslofjord, em Oslo, ao pôr-do-Sol, a obra representa uma figura andrógina num momento de profunda angústia e desespero existencial. Tal como seu compatriota Knut Hamsun, Prémio Nobel da Literatura em 1920, que conquistou sucesso com o romance Sult (Fome), publicado em 1890. Uma história sobre um jovem escritor sem tecto, incapaz de arranjar trabalho e morrendo de fome vagueando pelas ruas de Cristiania, uma antiga zona de bases militares abandonadas num subúrbio de Copenhaga. Ambos retratam o sofrimento e a angústia das pessoas por detrás das suas “máscaras de vida” em ambientes de cidades modernas da periferia da Europa. Uma expressão de uma cultura sem imagem, no dizer de Eduardo Lourenço[i], e de um imaginário que não reporta à “figura” de Deus. «Começa o longo reino do que, mais tarde, o herdeiro contemporâneo do expressionismo nórdico chamara, ilustrando-o num filme sublime, o Silêncio. Em suma, o reverso do Grito original sem escuta possível. Silêncio de Deus, silêncio humano, é a mesma coisa. Foi de dentro desta cultura confrontada com o silêncio incomunicante que surgiram os quadros de Munch ou o teatro de Strindberg, seu amigo»[ii].
Um século XX que se inicia com os seus conhecimentos fragmentados e já incapaz de descortinar o sentido do mundo e da vida. E assim prosseguiu. Recordemos as palavras do Arcebispo Desmond Tutu: «Nós humanos somos capazes de tolerar o sofrimento, mas incapazes de tolerar a ausência de sentido».
Das diferentes formas - figurativas, plásticas e arquitectónicas - de que se reveste a cultura moderna, a arquitectura parece, em palavras de Giampaolo Rossi, ser a melhor delas para captar e conferir entendimento ao mistério do sagrado e contrariar o sofrimento e a angústia que viu expresso em Munch e em Hamsun[iii]. Tal deve-se à capacidade de a Arquitectura exceder a racionalidade, de transformar e transfigurar a verdade, de transcender as linguagens formais, pelo que se pode converter num instrumento de um supremo acto criativo. E na criação artística do sagrado, o homem deve revelar-se como “imagem de Deus” e não como “silêncio de Deus”. Porque se um espaço sagrado, como uma igreja, é igual a tudo o resto, uma fábrica ou um pavilhão desportivo, significa que nada tem valor. É por isso que Rossi apela a que, nesta recuperação do sagrado, se recupere o fio da memória e da tradição que confere e exprime uma continuidade histórica com as comunidades do passado que adoraram o mesmo Deus. «O homem lembra-se de Deus e lembra Deus aos outros homens».
No livro Riconquistare lo Spazio Sagrado encontramos um escrito de José Cornélio da Silva sobre a Nuova Chiesa di Azoia[iv], um belo exemplo de uma igreja portuguesa, construída entre 1988-92 no concelho de Sintra, segundo os moldes da arquitectura tradicional. Ainda em fase de projecto, o Departamento de Arquitectura da Igreja Católica Portuguesa teceu críticas ao projecto por ser «demasiado tradicional e clássico», mas a boa receptividade que teve no Bispo Auxiliar de Lisboa D. António Rodrigues e o apoio do Cardeal-Patriarca D. António Ribeiro, também Magno-Chanceler da UCP, permitiram que a obra fosse avante. A obra foi premiada em 1992 com o “American Design Award“ do International Forum on Religion Art and Arquitecture (IFRAA).
[i] Eduardo Lourenço, “A Nau de Ícaro. Imagem e Miragem da Lusofonia”, Gradiva, Lisboa, 1999, p. 30.
[ii] Id..
[iii] Giampaolo Rossi, “Il christiano e l’arte: per la cultura della speranza”, em “Riconquistare lo Spazio Sagrado”, Il Bosco e La Nave, Roma, 1999, pp. 9-15.
[iv] José Cornélio da Silva e José Franqueira Baganha sobre a “Nuova Chiesa di Azoia”, em “Riconquistare lo Spazio Sagrado”, pp. 85-87.

